18 de fevereiro de 2012

Misteriosa epidemia devasta América Central


Jesus Ignacio Flores começou a trabalhar quando tinha 16 anos, em canteiros de obras e campos de plantação de seu país, Nicarágua.
Três anos atrás, seus rins começaram a falhar e inundaram seu corpo com toxinas. Ele ficou muito fraco para trabalhar, cheio de cãibras, dores de cabeça e vômitos.
Em 19 de janeiro, Jesus morreu na varanda de sua casa, com 51 anos, na cidade de Chichigalpa, onde estudos têm descoberto mais homens com sintomas de doença renal crônica.
A misteriosa epidemia está assolando a costa do Pacífico da América Central, matando mais de 24.000 pessoas em El Salvador e Nicarágua desde 2000 em taxas praticamente invisíveis em qualquer outro lugar. Cientistas dizem ter recebido relatos do fenômeno também ao sul do México e ao sul do Panamá.
Em Nicarágua, o número de mortes anuais por doença renal crônica mais do que dobrou em uma década, de 466 em 2000 para 1.047 em 2010, de acordo com a Organização Pan-Americana, braço regional da Organização Mundial de Saúde. Em El Salvador, houve um salto semelhante, de 1.282 em 2000 para 2.181 em 2010.
Mais abaixo na costa, nas planícies de cana crescentes do norte da Costa Rica, também tem havido fortes aumentos na doença renal, com mortes em ascensão no Panamá, embora em condições menos dramáticas.
No ano passado, a epidemia alcançou tal ponto que a ministra da saúde de El Salvador, Maria Isabel Rodriguez, apelou para a ajuda internacional, afirmando que a epidemia estava minando os sistemas de saúde.
Wilfredo Ordonez, que colheu gergelim, milho e arroz por mais de 30 anos na região de Bajo Lempa em El Salvador, foi atingido pela doença crônica quando tinha 38 anos. Dez anos mais tarde, ele depende de tratamentos de diálise que recebe quatro vezes por dia.
Muitas das vítimas dessa doença são trabalhadores braçais de plantações e construções que passaram a vida toda ralando.
Pacientes, médicos locais e ativistas dizem acreditar que o culpado pela epidemia se esconde entre os químicos agrícolas que os trabalhadores usaram durante anos com praticamente nenhuma das proteções necessárias em países mais desenvolvidos.
Porém, um crescente corpo de evidência sustenta uma hipótese mais complicada. As raízes da epidemia, segundo alguns cientistas, parecem residir na natureza exaustiva do trabalho realizado por suas vítimas, se esforçando por horas sem água suficiente em temperaturas ardentes, empurrando seus corpos através de repetidas crises de desidratação extrema e estresse térmico por anos a fio.
Muitos começam tão jovens quanto aos 10 anos. A rotina de punição parece ser uma parte chave de algum gatilho previamente desconhecido da doença renal crônica, que é normalmente causada por diabetes e pressão arterial alta, doenças ausentes na maioria dos pacientes da América Central.
Como trabalho duro e calor intenso não são um fenômeno exclusivo da América Central, alguns pesquisadores não excluem fatores artificiais. Há outras maneiras de danificar os rins. Metais pesados, produtos químicos e toxinas têm sido considerados, mas até agora não há candidatos principais para explicar o que está acontecendo em Nicarágua. Desidratação recorrente é a maior aposta.
Os cientistas e pesquisadores sabem que estão enfrentando uma condição desconhecida pela medicina até então. Na América Central, por causa da situação de vida dos moradores, muitos estão apenas esperando para morrer, ao invés de serem tratados.
Trabalhando com cientistas da Costa Rica, El Salvador e Nicarágua, pesquisadores testaram grupos de pessoas na costa e os compararam com grupos que têm hábitos de trabalho semelhantes e exposição a pesticidas, mas vivem e trabalham mais de 500 metros acima do nível do mar.
30% dos habitantes das zonas costeiras tinham níveis elevados de creatinina, sugerindo fortemente que o ambiente, ao invés de agroquímicos, era o culpado pela doença.
Pesquisadores afirmaram ter visto ecos do fenômeno da América Central em áreas de cultivo quentes no Sri Lanka, Egito e Índia. A opinião de alguns especialistas é que possa ser uma epidemia sub-reconhecida.
Outros cientistas e médicos também começaram a receber relatos da doença renal misteriosa entre os trabalhadores da cana de açúcar na Austrália.
Apesar do consenso crescente entre os peritos internacionais, Elsy Brizuela, uma médica que trabalha com um projeto de El Salvador para tratar os trabalhadores e pesquisar a epidemia, descarta a teoria da desidratação e insiste em que “o fator comum é a exposição a herbicidas e venenos”.
Taxas mais elevadas de doença renal crônica aparecem em plantações de um conglomerado onde vários trabalhadores ficaram doentes, na Nicarágua. Segundo um dos estudos feitos lá, cerca de oito anos atrás, a fábrica começou a oferecer solução eletrolítica e proteína para os trabalhadores que anteriormente traziam a sua própria água para trabalhar. Mas o estudo também descobriu que alguns trabalhadores estavam cortando cana de açúcar 9 horas e meia por dia com praticamente nenhum intervalo e pouca sombra em temperaturas médias de 30 graus Celsius.
Os donos das plantações afirmam que não há como estabelecer uma ligação direta entre o cultivo de cana de açúcar e a insuficiência renal. Entretanto, todas as conexões possíveis permanecem em aberto para futuras pesquisas.
Em comparação com a Nicarágua, onde milhares de portadores de doenças renais trabalham para grandes fazendas de açúcar, em
El Salvador muitos deles são pequenos agricultores independentes. Eles culpam os produtos químicos agrícolas pela epidemia e poucos parecem ter alterado significativamente seus hábitos de trabalho em resposta à última pesquisa, que não recebeu publicidade significativa em El Salvador.
Na Nicarágua, os perigos são mais conhecidos, mas, ainda assim, os trabalhadores precisam de emprego. O trabalhador Zapata Palacios morreu da doença e deixou oito filhos. Três deles trabalham nos canaviais. Dois já mostram sinais da mesma condição.

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