Por Adriano Benayon
2. Embora as modificações desse acordo aos Tratados da UE dependam de aprovação legal em cada país membro - processo que poderia durar anos - os manipuladores financeiros assumiram o poder na marra e irão em frente, a menos que o impeça a resistência dos povos, ainda sem organização.
3. Com a experiência da pequena Islândia, em duas consultas ao povo, a última em abril de 2011, os predadores perceberam que qualquer outra, em qualquer país, implica a derrota de suas proposições. Bastou o ex-primeiro-ministro da Grécia falar em referendo para ser demitido.
4. Mesmo antes de 09.12.2011 - quando
foi encenada "reunião de cúpula", e Sarkozy (França) e Angela Merkel
(Alemanha) anunciaram o tal "acordo" - o Goldman Sachs (GS) já havia
posto três de seus prepostos em posições-chave: Mario Draghi, presidente
do Banco Central Europeu; Mario Monti, primeiro-ministro da Itália;
Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia, envolvido em operações do
Goldman Sachs com a dívida grega resultantes em sua elevação.
5. Os países da Zona Euro (os 17 membros
da UE cuja moeda é o euro) serão obrigados a aceitar o "acordo".
Sarkozy e Merkel dizem que os dirigentes dos outros 15 países foram
consultados, mera formalidade. Nove outros Estados participam da União
Europeia, mas não adotam o euro: Reino Unido e Dinamarca (isentos), e
mais sete que poderiam ainda aderir à Zona.
6. Aqueles portavozes apresentaram o
pacote envolto neste rótulo: "salvar o euro"; "reforçar e harmonizar" a
integração fiscal e orçamentária da Europa. Na realidade, trata-se de
destruir a Europa econômica e politicamente, sem garantir a sobrevida do
euro, além de aprofundar a depressão, com o arrasamento das políticas
de bem-estar social, instituindo uma espécie de "lei de responsabilidade
fiscal", como a que manieta o Brasil.
7. O "acordo" impõe duras sanções aos
países que não o cumpram, ademais de ser fiscalizados pelo Tribunal
Europeu de Justiça. Os Chefes de Estado e de governo passam a reunir-se
mensalmente durante a crise. Com isso, reduz-se o poder dos burocratas
da Comissão Europeia, mas essa mudança nada altera, dado que estes
também executam fielmente os desejos oligarquia anglo-americana.
8. Sarkozy é cópia piorada de Mussolini,
pois este pôs os bancos sob controle do Estado - e não o contrário,
como se faz agora com a Europa, EUA etc. Submisso às diretivas da
oligarquia financeira, o presidente da França declara que os benefícios
sociais não são sustentáveis, na hora em que eles são mais necessários
que nunca, dado o desemprego grassante.
9. O pacote quer obrigar, punindo os que
não o cumpram, que os países da Zona Euro reduzam seus déficits
orçamentários para 0,5% do PIB, ou seja, seis vezes menos que o limite
de 3%, prescrito no Tratado de Maastricht.
10. Isso significa que Grécia, Itália,
Espanha, Portugal e outros terão de cortar ainda mais despesas, depois
de já as terem cortado, fazendo, assim, a depressão aprofundar-se. A
depressão já causou queda nas receitas fiscais. Combinada a queda das
receitas fiscais com o crescimento do serviço da dívida pública,
decorrente da alta das taxas de juros, temos, juntos, dois fatores de
elevação do déficit orçamentário.
11. Que fazer? Cortar toda despesa que
não as da dívida, desmantelando as políticas sociais e deixando de
investir na infra-estrutura econômica e na social. Isso trará, entre
outros danos irreparáveis, o aumento da disparidade entre membros mais e
menos desenvolvidos, inviabilizando a permanência destes na Zona Euro, o
que implica sua desintegração.
12. A periferia europeia está, pois,
ingressando no Terceiro Mundo, caminho aberto também ao restante da
Europa, já que acaba de lhe ser prescrita a receita usual do FMI, a qual
ajudou a manter o Brasil e outros no subdesenvolvimento.
13. A dupla franco-alemã infla seus egos
brincando de diretório europeu, mas Merkel, obedecendo aos bancos
alemães, rejeitou a possibilidade de o Banco Central Europeu (BCE)
emitir títulos para substituir os dos países devedores. Os bancos querem
continuar emprestando aos governos, para faturar os juros.
14. Essa rejeição deve levar ao fim do
euro, se este já não está perto do fim mesmo sem ela. Traz consequências
danosas para a própria Alemanha e para a França, pois obriga os
devedores mais problemáticos a continuar pagando taxas de juros
demasiado elevadas nos seus títulos.
15. Isso promove crise ainda maior de
suas dívidas, com o que credores - bancos alemães, franceses e
norte-americanos - chegarão mais rápido ao colapso. Mostra-se,
portanto, quimérica outra pretensão do "acordo": a de enquadrar os
países no limite de 60% do PIB para suas dívidas.
16. Não é para a União Europeia que os
países europeus estão perdendo a soberania. É em favor da oligarquia
financeira que renunciam formalmente, através de atos irresponsáveis de
seus chefes de governo.
17. A perda de soberania não se
restringe às regras draconianas citadas, por si sós conducentes à ruína
financeira e econômica. Inclui também que os países devedores liquidem -
a preço de salvados do incêndio - inalienáveis patrimônios do Estado,
como já foi determinado à Grécia e a outros. É a privatização, objeto
das mais colossais corrupções vistas na história do Brasil.
18. Os analistas ligados ao sistema de
poder atribuem a crise dos países europeus mais pobres a terem estes
gastado acima de suas possibilidades, e mesmo economistas mais sérios
oferecem explicações para a débâcle europeia que omitem sua causa principal.
19. Essa causa é a depressão econômica
mundial, resultante do colapso financeiro armado pela finança
oligárquica centrada em Nova York e Londres. Ele eclodiu em 2007,
iniciando a depressão que se desenha como a mais profunda e longa da
História, se não for interrompida pela terceira guerra mundial,
planejada pelo complexo financeiro-militar dos EUA.
20. Martin Feldstein, professor de
Harvard, aponta diferenças institucionais e nas políticas monetária e
fiscal entre os EUA e a UE. Ele e muitos, como Delfim Neto, atribuem
grande importância à taxa de câmbio. Argumentam que os europeus em crise
não têm como desvalorizar a moeda para se tornarem mais competitivos,
uma vez que adotaram o euro.
21. Robert Solow, prêmio Nobel, salienta
que a UE transfere recursos de pequena monta aos membros menos
avançados, pois o orçamento unificado da UE equivale a só 1% de seu PIB.
Já nos EUA o governo federal fez vultosas transferências de recursos aos Estados e para regiões críticas.
22. Ainda assim, Itália, Espanha,
Grécia, Portugal suportaram a situação até surgir a depressão mundial.
Tendo exportações de menor conteúdo tecnológico que Alemanha, Holanda,
França, e dependendo do turismo, foram duramente atingidos até pela
queda da produção e do emprego nos países ditos ricos, inclusive
extra-continentais, como EUA e Japão.
23. A depressão, por sua vez, adveio das
bandalheiras financeiras geradas a partir de Wall Street e bases
off-shore, sem regulamentação, atuantes no esquema da City de Londres,
desembocando no colapso financeiro que eclodiu em 2007 e se direciona
para novo estágio, mais destrutivo.
24. Os europeus envolveram-se na onda
dos derivativos, quando bancos suíços e alemães adquiriram alguns bancos
de investimento de Wall Street. Mesmo assim, os bancos dos EUA estão
tão ou mais encalacrados que os europeus nos títulos podres resultantes
da abusiva criação dos derivativos.
25. Ademais, Grécia, Espanha, Itália e
outros foram enrolados pela engenharia financeira de Wall Street,
Goldman Sachs à frente, que lesou investidores, camuflando os riscos,
além de proporcionar créditos àqueles países, ao mesmo tempo em que
fazia hedge, jogando contra seus devedores, com o resultado de elevar os
juros das dívidas.
26. O assaltante está tendo por prêmio
ficar com a casa do assaltado. Mas, antes da ocupação dos governos pelos
bancos, agora ostensiva, as pretensas democracias ocidentais já não
tinham autonomia, mesmo com parlamentos eleitos escolhendo o
primeiro-ministro.
27. Como os principais partidos
políticos são controlados pela oligarquia financeira - na Europa, nos
EUA etc. - e se diferenciam apenas por ideologias pró-forma, acomodáveis
a qualquer prática, pode-se dizer que a escolha eleitoral se limita à
marca do azeite com o qual os eleitores serão fritados.
28. O "acordo" agora imposto à Europa
surge como culminação de uma guerra financeira que completa o trabalho
realizado nas duas primeiras Guerras Mundiais. Estas destruíram a
Alemanha e a França como grandes potências. O império anglo-americano só
não conseguira retirar esse "status" da Rússia, mas o logrou, ao final
da Guerra Fria (1989), conquanto a Rússia busque agora recuperá-lo.
29. Para que a Europa não afunde, terá
de tomar rumo radicalmente diferente daquele em que foi colocada e no
qual segue em aceleração impulsionada pelo "acordo" a ser celebrado, a
pretexto de salvar a moeda única.
30. O General De Gaulle, nos anos 60,
insurgiu-se contra o privilégio dos EUA, de cobrir seus enormes déficits
externos, simplesmente emitindo dólares, e exigiu a conversão para o
ouro das reservas da França. Profeticamente advertiu que a entrada da
Inglaterra na UE seria uma operação "cavalo de Troia".
31. Hoje o dólar continua sendo
sustentado pela condição de divisa internacional, instituída em 1944
(acordos de Bretton Woods), e mais ainda pelo poder militar. Os EUA
forçam, por exemplo, que seja liquidado em dólares o petróleo
comerciado entre terceiros países.
32. Percebe-se o móvel de desviar para a
Europa o foco da crise econômica e financeira, que deveria estar nos
EUA e do Reino Unido. Ele foi posto na Eurolândia, através de jogadas
dos bancos de Wall Street com suas subsidiárias baseadas no grande
paraíso fiscal que é a City de Londres.
33. Os mercados financeiros parecem
teatro do absurdo. Se não, como explicar que os títulos de longo prazo
norte-americanos paguem juros de menos de 2% aa., enquanto os da Itália,
de dois anos de prazo, subiram para 8% aa.? E como explicar que a
cotação do risco de crédito da Alemanha e da França esteja sendo
rebaixada, enquanto isso não se dá com os títulos norte-americanos?
34. Deveria ser o contrário, pois: 1) as
emissões de dólares em moeda e em títulos públicos são muito maiores
que as de euros; 2) a dívida pública dos EUA atinge 120% do PIB (muito
mais que os países da Zona Euro), e seria muitíssimo maior sem as
enormes compras de títulos do Tesouro dos EUA pelo FED e as emissões
desbragadas do FED; 3) o déficit orçamentário dos EUA supera 10% do PIB,
enquanto a média europeia é 4%. 4) o déficit nas transações com o
exterior dos EUA, em 2010, correspondeu a 3,9% do PIB, enquanto a
Alemanha teve superávit de 5,7% do PIB, e os déficits da França e da
Itália foram 2% e 3% do PIB.
35. Não bastasse, os grandes bancos
americanos têm vultosas carteiras de títulos podres (sobre tudo
derivativos), mesmo depois de grande parte deles ter sido comprada pelo
FED e por agências do governo dos EUA, em operações caracterizadas por
grau incrível de corrupção.
36. Como aponta o Prof. Michael Hudson,
um quarto dos imóveis nos EUA vale menos que suas hipotecas. Cidades e
Estados estão em insolvência, grandes companhias falindo, fundos de
pensão com pagamentos atrasados.
37. A economia britânica também
cambaleia, mas os títulos governamentais pagam juros de só 2% aa.,
enquanto os membros da Zona Euro enfrentam juros acima de 7% aa, porque
não têm a opção "pública" de criar dinheiro.
38. O artigo 123 do Tratado de Lisboa
proíbe o BCE fazer o que os bancos centrais devem fazer: criar dinheiro
para financiar déficits do orçamento público e rolar as dívidas do
governo. Tampouco o pode o banco central alemão, por força da
Constituição da Alemanha (país ocupado).
39. Conclui Hudson: "se o euro
quebrar será porque os governos da UE pagam juros aos banqueiros, em vez
de se financiar através de seus próprios bancos centrais." Dois
poderes caracterizam o Estado-Nação: criar dinheiro e governar a
política fiscal. O primeiro já não existia para os europeus, e o segundo
está sendo cassado com o presente "acordo".
* Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de "Globalização versus Desenvolvimento" - abenayon.df@gmail.com
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