10 de outubro de 2011

Depois de Europa e EUA, China será a próxima “vítima” da crise econômica?


Símbolo do empreendedorismo privado na China, Wenzhou, na província de Zhejiang, se transformou na ponta do iceberg de uma nova ameaça à economia do país: a explosão no volume de empréstimos concedidos fora do sistema financeiro nos últimos dois anos. Pelo menos 80 empresários fugiram e dois cometeram suicídio desde abril por não conseguirem pagar dívidas contraídas no mercado de crédito “subterrâneo”, segundo levantamento feito pela agência oficial de notícias Xinhua.

Os juros nessas operações giram em torno de 24% a 36% ao ano, comparados à taxa básica de 6,56% fixada pelo banco central para as operações “oficiais”, mas em empréstimos de curto prazo, o percentual pode chegar a 60%. Pequenas e médias empresas e empreendedores imobiliários privados recorrem a esses financiamentos extorsivos em razão da dificuldade de obter empréstimos no sistema bancário, especialmente depois das medidas de aperto monetário impostas pelo governo a partir de 2010.

Muitos entram em um círculo vicioso, no qual contraem novos créditos para pagar os anteriores, até que não conseguem mais administrar a dívida. A situação se tornou mais grave com a recente alta dos custos de produção, queda nos lucros e inflação na casa dos 6%. O fenômeno está longe de se restringir a Wenzhou. O Credit Suisse estima que o mercado “subterrâneo” soma 4 trilhões de yuans (R$ 1,16 trilhão), o equivalente a 15% do total de financiamentos concedidos oficialmente pelos bancos em 2010, e se espalha por todas as grandes cidades da região leste, incluindo Pequim e Xangai. Em Wenzhou, a cifra é de 110 bilhões de yuans (R$ 31,93 bilhões) ou 20% do empréstimos.

O economista-chefe do Credit Suisse, Dong Tao, acredita que a explosão no crédito informal é a mais perigosa “bomba-relógio” no horizonte de curto prazo da economia chinesa. Os recursos que alimentam esse mercado vêm de diferentes fontes, entre as quais famílias em busca de rendimento superior à taxa anual de 3,5% que os bancos pagam pelos depósitos, inferior à inflação que gira em torno dos 6%. “Diferentemente do mercado de crédito oficial, o mercado de crédito informal tem uma longa cadeia de débito. Se um elo essa cadeia falha, toda a rede provavelmente entra em colapso”, escreveu o economista em nota a seus clientes. Segundo ele, o impacto negativo desse cenário pode ser generalizado, com efeitos sobre os balanços das empresas, a confiança dos consumidores e os ativos dos bancos.
Hoje, o primeiro-ministro Wen Jiabao visitou a província de Zhejiang e exaltou os bancos a concederem empréstimos às pequenas empresas e a tolerarem um maior índice de créditos podres desse setor. Segundo a agência Xinhua, os negócios de pequeno porte respondem por 80% dos empregos e 60% da produção industrial do país.

Entre os 80 empresários que fugiram de Wenzhou por não conseguirem pagar seus débitos está Hu Fulin, dono de uma das maiores fábricas de óculos da China, a Zhejiang Center Group, que emprega 3.000 pessoas e tem exportações de 600 milhões de yuans (R$ 174,1 milhões) ao ano. De acordo com o jornal 21st Century Business Herald, a companhia contraiu dívida de 2 bilhões de yuans (R$ 580,6 milhões) no mercado de crédito subterrâneo.
Desse total, uma parcela de 1,2 bilhão de yuans gerava juros mensais de 20 milhões de yuans, enquanto a taxa sobre os restantes 800 milhões de yuans era de 5 milhões de yuans ao mês. “O surto de empréstimos privados deu origem a uma bolha econômica e o “episódio das fugas” em Wenzhou é um marco no estouro dessa bolha”, disse texto publicado na semana passada no jornal Financial News, ligado ao banco central da China.

Na segunda-feira, o governo de Wenzhou fixou um teto para os juros dos empréstimos subterrâneos, em uma tentativa de regular um mercado que funciona totalmente à margem das regras oficiais. As taxas dessas operações não poderão ser mais que quatro vezes superiores aos juros básicos definidos pelo banco central. A medida se aplica aos empréstimos concedidos, que deverão ser repactuados. Caso não haja acordo, o devedor estará isento de pagar o percentual dos juros que superar ao teto definido segunda-feira.

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